Em um bairro um tanto afastado do centro da grande metrópole, com o sol de verão a castigar o asfalto esburacado, vinha correndo pela rua uma pequena figura de cabelos pretos desgrenhados e despenteados, vestindo um uniforme surrado de escola, chinelos velhos e mochila nas costas. Pulava e girava no ar, muitas vezes perdendo o equilíbrio e as chinelas, mas alegremente calçava-as novamente e retornava ao caminho que conhecia muito bem. Subitamente o menino para em frente a uma casa modesta mas bem ajeitada, enfia a mão direita no bolso e retira um par de chaves. Em um piscar de olhos o menino sumiu da paisagem, fechou o portão correndo e entrou na casa aos berros:
- Mãe! Mãe! Mãe! - o garoto enquanto atravessava a porta da sala e abria apressadamente a mochila em busca de uma folha de papel amassado - Olha mãe, tirei seis e meio em matemática!
A mãe, uma senhora magra e alta vestia um vestido comprido, repleto de estampas, um avental de cozinha florido, e guardava seus longos cabelos negros no interior de um lenço amarrado à cabeça. Querendo acabar logo com a gritaria do filho e retornar logo às suas atividades, a mulher deixou de cortar os legumes e misturar a comida no fogão para dar a atenção que a criança pedia aos berros.
- Qual é o motivo de tanto grito, filho? - disse a mãe secando as mãos no vestido velho.
- Tirei seis e meio em Matemática mãe! - o braço magro e curto do menino esticava a prova em direção aos olhos da mãe - Olha! A professora até escreveu "parabéns" no canto da folha!
- Deixa eu ver isso.
Retirando a prova das mãos do filho cuidadosamente, descrédula, a mãe passou os olhos por toda a folha examinando atenciosamente data, assinatura, questões e respostas.
- Olha João, parabéns filho! - e em tom de alívio, a mãe fez um cafuné no filho retomando os afazeres da cozinha.
- Vou colar na televisão para o papai ver quando chegar em casa do trabalho.
- Não! Pelo amor de Deus menino! - disse a mãe enquanto girava nos calcanhares para segurar o menino pela camiseta quase rasgando-a pela metade - Cola na geladeira, porque a tevê é nova e se estragar seu pai vai dar um chilique.
Não menos animado, João fez como pedido pela mãe e voltou a perguntar-lhe.
- Mãe?
- Sim querido?
- Quando eu crescer quero ser professor! - os olhos do menino brilharam como brilham os olhos de uma criança ao vislumbrar o futuro.
- Filho meu professor? A maioria dos professores desse país passa fome e praticamente paga pra trabalhar! Além do mais que seu pai não vai pagar faculdade para você virar professor! Ora essas! - percebendo a tristeza do filho ao ouvir o comentário, abrandou a voz - Você pode ser jogador de futebol!
Cabisbaixo o menino respondeu prontamente:
- Nem sou tão bom de bola assim...
Alguns segundos depois, o menino veio com outra ideia:
- Posso ser policial, mãe! - João voltava a estampar um sorriso no rosto.
- Deus que me livre e guarde! Meu filho policial? Correndo atrás de vagabundo pra ganhar uma merreca e correr constante risco de morte?! Piorou!
O menino totalmente desanimado puxou uma cadeira e sentou-se apoiando a cabeça sobre as mãos. A expressão do pequeno tornou-se vazia e distante. Aquela cabecinha cujos cabelos permaneciam loucamente despenteados pensava em todas as possibilidades de profissão, mas nada lhe parecia suficientemente prazeroso.
Após alguns minutos de muito pensar, aquele rosto infantil retomou finalmente uma expressão confiante.
- Que foi menino? - perguntou a mãe ao ver aquela expressão quase louca do filho enquanto arrumava a mesa.
- Achei uma muito boa, mãe - o sorriso de João ia se intensificando lentamente, quase que de uma maneira demoníaca.
- Então diz, qual é essa tal profissão dos sonhos? - a mãe passou a encarar o filho, as mãos na cintura.
- Quero ser político!
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