terça-feira, 19 de julho de 2011

História de Um Brâmane

    Permaneci calado por algum tempo, pois venho incomodado com a filosofia, a razão, e o conhecimento incessante, o qual, incansavelmente busco, sem nem mesmo saber porque. De que adianta tanto conhecimento, que na verdade não passa de alguma subjetividade alheia? 
       De que adianta, buscar incansavelmente soluções para perguntas sem repostas? O fato é que por mais que eu indague e pesquise, jamais saberei de onde vim, porque vim, e para onde vou. E isso me faz sentir o pior dos homens, pois não sei justificar minhas atitudes, quanto menos responder o que sou. Não seria melhor então, não me preocupar com nenhuma destas questões, e simplesmente viver a vida, como deve ser, apenas mais uma peça deste imenso tabuleiro? 
       Em meio a tantas perturbações me deparei, por um leve acaso, com este conto de Voltaire. Exponho ele antes de me posicionar. Assim que conseguir digerir um pouco mais tudo isso volto aqui.
    
História de Um Brâmane
(Voltaire)

      "Encontrei nas minhas viagens um velho brâmane, homem bastante sábio, cheio de espírito e erudição; de resto, era rico, e por isso mesmo ainda mais sábio; pois, como nada lhe faltasse, não tinha necessidade de enganar ninguém. O seu lar era muito bem governado por três belas mulheres que porfiavam em agradar-lhe; e, quando não se divertia com elas, ocupava-se em filosofar.
         Perto de sua casa, que era bonita, bem ornamentada e cercada de encantadores jardins, morava uma velha hindu, imbecil e muito pobre.
      - Quem me dera não ter nascido! - disse-me um dia o brâmane. Perguntei-lhe porquê. - Há quarenta anos que estudo - respondeu-me - e são quarenta anos perdidos: ensino aos outros, e ignoro tudo; esse estado enche-me a alma de tal humilhação e desgosto, que me torna a vida insuportável. Nasci, vivo no tempo, e não sei o que é o tempo; acho-me num ponto entre duas eternidades, como dizem os nossos sábios, e não tenho a mínima ideia da eternidade. Sou composto de matéria, penso, e nunca pude saber por que coisa é produzido o pensamento; ignoro se o meu entendimento é em mim uma simples faculdade, como a de marchar, de digerir, e se penso com a minha cabeça como seguro com as minhas mãos. Não só o princípio do meu pensamento me é desconhecido, mas também o princípio de meus movimentos: não sei por que existo. No entanto, todos os dias me perguntam sobre todos esses assuntos; é preciso responder; nada tenho que preste para lhes comunicar; falo bastante, e fico confuso e envergonhado de mim mesmo após ter falado.
       O pior é quando me perguntam se Brama foi produzido por Vixnu, ou se ambos são eternos. Deus é testemunha de que nada sei a respeito disso, o que bem se vê pelas minhas respostas. - Ah! meu reverendo - imploram-me, - dizei-me como é que o mal inunda toda a terra. - Tenho as mesmas dificuldades que aqueles que me fazem tal pergunta: digo-lhes algumas vezes que tudo vai o melhor possível; mas aqueles que ficaram arruinados ou mutilados na guerra não acreditam nisso, nem eu tampouco: retiro-me acabrunhado da sua curiosidade e da minha ignorância. Vou consultar os nossos antigos livros, e estes duplicam as minhas trevas. Vou consultar os meus companheiros: respondem-me uns que o essencial é gozar a vida e zombar dos homens; outros julgam saber alguma coisa, e perdem-se em divagações; tudo concorre para aumentar o doloroso sentimento que me domina. Sinto-me, às vezes, à borda do desespero, quando penso que, após todas as minhas pesquisas, não sei nem de onde venho, nem o que sou, nem para onde vou, nem o que me tornarei.
       O estado desse excelente homem causou-me verdadeira pena: ninguém tinha mais senso e boa-fé. Compreendi que, quanto mais luzes havia no seu entendimento e mais sensibilidade no seu coração, mais infeliz era ele. 
       Vi, no mesmo dia, a velha sua vizinha: perguntei-lhe se alguma vez se afligira por saber como era a sua alma. Nem chegou a entender minha pergunta: nunca na sua vida refletira um momento sobre um só dos assuntos que atormentavam o brâmane; acreditava de todo o coração nas metamorfoses de Vixnu e, desde que algumas vezes pudesse conseguir água do Ganges para se lavar, julgava-se a mais feliz das mulheres.
       Impressionado com a felicidade daquela pobre criatura, voltei ao meu filósofo e disse-lhe: 
      - Não te envergonhas de ser infeliz, quando mora à tua porta um velho autômato que não pensa em nada e vive contente?
      - Tens razão - respondeu-me ele; - mil vezes disse comigo que seria feliz se fosse tão tolo como a minha vizinha, e no entanto não desejaria tal felicidade.
       Essa resposta causou-me maior impressão que tudo o mais; consultei a minha consciência e vi que na verdade também não desejaria ser feliz sob a condição de ser imbecil. 
      Expus a questão a filósofos, e eles foram da minha opinião. - No entanto - dizia eu, - há uma terrível contradição nessa maneira de pensar. Pois de que se trata, afinal? De ser feliz. Que importa, pois, ter espírito ou ser tolo? Mais ainda: aqueles que estão contentes consigo estão bem certos de estar contentes; mas aqueles que raciocinam não se acham tão certos de bem raciocinar. - É claro - dizia eu - que se deveria preferir não ter senso-comum, uma vez que este contribua, o mínimo que seja, para o nosso mal-estar. Todos foram da minha opinião, e todavia não encontrei ninguém que quisesse aceitar o pacto de se tornar imbecil para andar contente. Donde concluí que, se muito nos importamos com a ventura, mais ainda nos importamos com a razão.
       Mas, refletindo bem, parece uma insensatez preferir a razão à felicidade. Como se explica, pois, tal contradição? Como todas as outras. Aí há muito de que falar."

(Conto retirado de "Primores do Conto Universal. Contos Franceses" )

Gabriel Ornellas

Um comentário:

  1. As respostas pairam no ar, chamam-nos a atenção. Basta abrir os olhos da mente para enxergar algumas perguntas que respondem à certas perguntas, mas que nos trazem novos "desafios". E mesmo que essas respostas definitivas fossem muito simples de serem respondidas, nós seríamos muito burros para fazê-lo.

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