sábado, 14 de julho de 2012

Professor, Policial ou político?


Em um bairro um tanto afastado do centro da grande metrópole, com o sol de verão a castigar o asfalto esburacado, vinha correndo pela rua uma pequena figura de cabelos pretos desgrenhados e despenteados, vestindo um uniforme surrado de escola, chinelos velhos e mochila nas costas. Pulava e girava no ar, muitas vezes perdendo o equilíbrio e as chinelas, mas alegremente calçava-as novamente e retornava ao caminho que conhecia muito bem. Subitamente o menino para em frente a uma casa modesta mas bem ajeitada, enfia a mão direita no bolso e retira um par de chaves. Em um piscar de olhos o menino sumiu da paisagem, fechou o portão correndo e entrou na casa aos berros:
- Mãe! Mãe! Mãe! - o garoto enquanto atravessava a porta da sala e abria apressadamente a mochila em busca de uma folha de papel amassado - Olha mãe, tirei seis e meio em matemática!
A mãe, uma senhora magra e alta vestia um vestido comprido, repleto de estampas, um avental de cozinha florido, e guardava seus longos cabelos negros no interior de um lenço amarrado à cabeça. Querendo acabar logo com a gritaria do filho e retornar logo às suas atividades, a mulher deixou de cortar os legumes e misturar a comida no fogão para dar a atenção que a criança pedia aos berros.
- Qual é o motivo de tanto grito, filho? - disse a mãe secando as mãos no vestido velho.
- Tirei seis e meio em Matemática mãe! - o braço magro e curto do menino esticava a prova em direção aos olhos da mãe - Olha! A professora até escreveu "parabéns" no canto da folha!
- Deixa eu ver isso.
Retirando a prova das mãos do filho cuidadosamente, descrédula, a mãe passou os olhos por toda a folha examinando atenciosamente data, assinatura, questões e respostas.
- Olha João, parabéns filho! - e em tom de alívio, a mãe fez um cafuné no filho retomando os afazeres da cozinha.
- Vou colar na televisão para o papai ver quando chegar em casa do trabalho.
- Não! Pelo amor de Deus menino! - disse a mãe enquanto girava nos calcanhares para segurar o menino pela camiseta quase rasgando-a pela metade - Cola na geladeira, porque a tevê é nova e se estragar seu pai vai dar um chilique.
Não menos animado, João fez como pedido pela mãe e voltou a perguntar-lhe.
- Mãe?
- Sim querido?
- Quando eu crescer quero ser professor! - os olhos do menino brilharam como brilham os olhos de uma criança ao vislumbrar o futuro.
- Filho meu professor? A maioria dos professores desse país passa fome e praticamente paga pra trabalhar! Além do mais que seu pai não vai pagar faculdade para você virar professor! Ora essas! - percebendo a tristeza do filho ao ouvir o comentário, abrandou a voz - Você pode ser jogador de futebol!
Cabisbaixo o menino respondeu prontamente:
- Nem sou tão bom de bola assim...
Alguns segundos depois, o menino veio com outra ideia:
- Posso ser policial, mãe! - João voltava a estampar um sorriso no rosto.
- Deus que me livre e guarde! Meu filho policial? Correndo atrás de vagabundo pra ganhar uma merreca e correr constante risco de morte?! Piorou!
O menino totalmente desanimado puxou uma cadeira e sentou-se apoiando a cabeça sobre as mãos. A expressão do pequeno tornou-se vazia e distante. Aquela cabecinha cujos cabelos permaneciam loucamente despenteados pensava em todas as possibilidades de profissão, mas nada lhe parecia suficientemente prazeroso.
Após alguns minutos de muito pensar, aquele rosto infantil retomou finalmente uma expressão confiante.
- Que foi menino? - perguntou a mãe ao ver aquela expressão quase louca do filho enquanto arrumava a mesa.
- Achei uma muito boa, mãe - o sorriso de João ia se intensificando lentamente, quase que de uma maneira demoníaca.
- Então diz, qual é essa tal profissão dos sonhos? - a mãe passou a encarar o filho, as mãos na cintura.
- Quero ser político!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Estudo e Ciência, excesso-vazio?

     Mesmo que a ciência se especialize e tenha cada vez mais precisão e rigor, o objeto sempre estará ligado ao observador tão intrinsecamente que certo dia, o cientista não o verá mais. 
     Antes que o objeto de estudo seja "desconhecido", usaremos toda nossa "bagagem" científica para presumir, reconhecer, familiarizar, categorizar e passar por cima de qualquer possibilidade de se surpreender, de olhar o fenômeno, e sim, se assustar com o novo. Sim, nós crescemos, passamos anos em escolas, estudando teorias, valores, conceitos, objetos, abstrações, a mente está cheia de "domínios", cheia de poder. Parece que estamos evoluindo, ficando cada vez mais poderosos e inteligentes. Um dia, quando a consciência souber de tanta coisa, mas de tanta coisa, ela pode parar de se surpreender com o mundo. Pode deixar de ter "espaço" pra surpresa e pra novidade, enchergando tudo com tanto conhecimento que seus óculos ficarão fixos para sempre, não sendo mais possível voltar atrás. Penso ser esse o maior medo, não mais ter espaço para descobertas.
    A ilusão de que o conhecimento pode nos ajudar a compreender a realidade, justificando todos os esforços científicos, pode nos tornar cegos. Teremos ferramentas, tecnologias, microscópios, computadores, e estaremos cada vez mais longe do "Ver". Quando eu era mais criança, e não tinha muito conhecimento, parecia ter mais espaço para "coisas" novas, meu mundo era mais supreendente, havia tanta coisa que eu nem tinha idéia do que era, que me fascinava e me brilhava os olhos. Hoje, o que me supreende, e preocupa, é que as surpresas estão se reduzindo. Acumulei toneladas de teorias, lixo intelectual de todo tipo, ciência avançada, especializada, coisa fina! Livros e livros de idéias, palavras e concepções. Quando eu souber de tudo que posso saber, o desafio será "abrir espaço", não pra me aprofundar ainda mais na "ilusão" do conhecimento, mas pra ver de um modo cru, nu, essencial, primordial. Ainda sim, cru, nu, essencial e primordial serão palavras carregadas de lixo, de passado. Ahh certo, a ciência deve se debruçar no futuro. Que futuro? O tempo em que todas as palavras possíveis já tiverem sido inventadas, destruídas e reconstruídas, tentando resignificar seus "conteúdos". E que conteúdos são feito as palavras? Não são de letras, professor.  O observador só pode ver (no objeto), aquilo em que já está inundado: Fórmulas, teorias, instrumentos, conceitos, "verdades"... A base do conhecimento está se "solidificando", e nos possibilitando "evoluir?" na compreensão da realidade. Parece loucura. E é, amigo. Acredite. O maior inimigo para conhecer a verdade pode ser a dúvida, mas também pode ser a certeza!

Diego Ornellas

sábado, 25 de fevereiro de 2012

"Tempos Modernos"

Há tempos, cientistas estudam o deslocamento do eixo gravitacional da Terra. Dizem que a mudança em sua inclinação tenha causado uma diminuição na duração dos dias. Alguns religiosos também afirmam, com base em estudos da bíblia, que os dias tendem a ficar mais curtos com o transcorrer dos anos.
Parece que o tempo passa tão rápido hoje em dia. A noção de tempo do ser humano é cada vez mais afetada, e são muitas as razões. As horas não "rendem", escoam por entre os dedos, esvaem-se entre tarefas e parece que não se pode aproveitar o dia como antigamente. Quem nunca se pegou olhando para o relógio, perplexo ou surpreso, dizendo para si mesmo - Nossa! Já passou tanto tempo assim?! - ou simplesmente - Nossa! Ainda!.
Reclamamos da quantidade de tarefas a realizar e da ausência do tempo necessário para tanto. Reclamamos do tédio e da ausência de coisas a fazer. Parece que nossa natureza nos impele a reclamar ou que influências externas como meio ou filosofia de vida nos levam ao caminho da reclamação.
Impacientes ou entediados, o ter de fazer ou a ausência do que fazer nos frustra e consome. De onde vem essa mania de reclamar? Talvez desse mundo maníaco em que vivemos. Nos cobra e ao mesmo tempo nos pede que relaxemos para evitar o estresse. Nos entucha informações e querem que as absorvamos rapidamente. Querem de nós o inglês, o espanhol, o mandarim e o alemão. Querem que de nossas vidas possamos abrir mão.
E tudo tem se tornado tão rápido, sutil, supérfluo. Era da informação? - "Boa noite Face..." - informação uma merda! Era da imbecilização.
Bom... não posso me irritar. Li em um artigo vinculado à um famoso jornal, há pouco recebido via tablet - que não desconecto da minha rede wi-fi de casa nem a pau, e sem o qual me mantenho totalmente desconectado do mundo - que estresse mata. Melhor não me irritar.
O tempo continua e sempre continuará sendo relativo e o nosso tempo é curto. Com que gastar o meu precioso tempo? Dizem que viver é uma questão de escolhas.