Tic...tac...tic...tac... Mal começa o dia e um estrondo metálico/eletrônico irrompe na madrugada silenciosa compondo a sinfonia da manhã mais temida e menos aguardada por muitos, a do despertador, que põe milhares em pé todos os dias. Olhos vermelhos pedem cama enquanto seus donos limpam suas cacas remelentas que insistem em retornar mais úmidas e menos grudentas aos olhos menos vermelhos. O dia mal começa e pensamentos latentes e impertinentes cintilam como um faróis de xenon focados nos olhos de mentes perturbadas. Prazos, metas, juros, contas, reuniões... E cada vez mais a brincadeira de casinha vai ficando muito séria, séria até demais.
Muitos zombam dos considerados loucos, desprendidos e despragmatizados, porém como disse Augusto Cury em "O vendedor de Sonhos" - ... os loucos são aqueles que elaboram as teorias usadas pelos considerados normais - e isso definitivamente gera uma controvérsia. Os "normais" zombam do fato de os "loucos" não terem idéias fixas, planos de carreira ou de família e de seu "descompromisso" com a realidade. De fato realidade é sobre o que eles mais sabem. O engraçado em tudo isto é que alguns destes "normais" desejam ardentemente, em momentos de "devaneio" (é claro), ser como os malucos desprendidos. Isso porque a brincadeira de casinha entedia e a pergunta que não quer calar vem a tona. "O que eu estou fazendo nesse mundo?". Todo aquele planejamento , metas e objetivos mesmo que atingidos não são suficientes para apaziguar a borbulha e inquietação causadas pela pergunta filosófica, as vezes levando o indivíduo à "loucura" (ou seria isto um bem que nos tornasse voltados "normalidade"?). Conceitos de loucura e normalidade são muito abstratos quando analisados por um ponto de vista filosófico e podem confundir mentes "esclarecidas", portanto não os discutirei.
Mesmo assim, felizes são aqueles que têm essa pergunta na mente, pois muitos sequer chegam a refletir sobre tal questão. Felizes porque têm tempo de observar o que têm feito da vida, analisar suas personalidades, relacionamentos e descobrirem a si mesmos buscando viver o que querem e não o que um sistema falido espera que vivam. A rotina cansa, cala, diminui e faz com que nos "acostumemos" a ela.
Engraçada a matemática das coisas. Alguns planejam e conseguem alcançar "seus" objetivos (que, volto a dizer, na maioria dos casos pertence à uma coletividade abstrata [alguns insistem em chamar de sistema, hoje falido] ), mas mesmo alcançando "seus" objetivos no fim das contas nada têm. Enquanto outros, imersos em suas "maluquices particulares", tomados pela vida e suas imensas proporções, sempre terão algo de interessante para contar aos netos, seja sobre sua intensa e incansável viagem em mundos particulares que por sermos humanos tendem a coincidir, pelo menos em parte, com mundos particulares de outras pessoas (incrível a capacidade humana de sermos, ao mesmo tempo, diferentes e iguais uns aos outros), seja sobre viagens e descobertas externas que adicionam experiências inestimáveis à cultura humana.
Novamente pergunto, o que você tem feito da vida? (e não o que ela tem feito de você). Pensemos um pouco, talvez nunca cheguemos a uma resposta... e quem disse que precisamos dela. Talvez só a reflexão seja suficiente.
Igor Vivo