quinta-feira, 28 de julho de 2011

Esconderam "tudo"?

Um turbilhão de imagens desconexas emergiam do meu subconsciente e entravam em cena no palco dos sonhos formando o que chamam de pesadelo. Aquilo me trouxe um certo desconforto e repentinamente como quem foge desesperado de algo que não sabe o que é mas teme por precaução, me via acordado. Na realidade não tenho certeza disso. A única coisa que conseguia enxergar era a escuridão. Parece melhor do que aquelas imagens perturbadoras, então acredito ter acordado. Percebo a ausência do cobertor. O desconforto do sono é grande e eu estendo o meu braço em busca do interruptor que costumava estar ali. Logo ali. Cadê a porra do interruptor?
Irritado, me levanto da cama. Agora eu estico o braço na certeza de que um esbarrão com a parede vai me proporcionar alguma referência da qual eu preciso para encontrar o maldito interruptor. Nada de esbarrão. Após um passo ensaiado topo meu dedão do pé com alguma coisa da qual eu gostaria de saber o que era, para poder usar seu nome como sujeito do palavrão que proferira. Dor e cólera se misturam e atacam meu sistema nervoso e psicológico. Fecho os olhos profunda e irritadamente, como se isso fosse me trazer a visão e reduzir meu sofrimento.
Confusão. Ao abrir os olhos percebo que a luz se torna presente. Muita confusão. Mas o que está acontecendo? Por um instante minha ira e sofrimento me impedem de ver o presente estarrecedor. Não havia mais nada no lugar. Minha posição se tornara estática. Meus olhos a única coisa a se movimentar em meu ser. Tudo fora mudado.
Uma triste e deprimente paisagem é captada por minhas retinas. Meus pés que antes pisavam em confortáveis e aquecidas placas de madeira agora sentiam os grãos de terra se acomodando por entre meus dedos. Percebo minha nudez. Nada de roupas. Por mais que eu tente retratar o que se passa em frente aos meus olhos o estado de estupor não permite que eu enxergue. Tudo parece horrível. Ao voltar meus olhos para o horizonte vejo algumas árvores que outrora foram imponentes e esbanjavam de vivacidade. Porém agora o que lhes restavam eram folhas secas e retorcidas, deitadas aos seus pés, galhos quebrados e desnutridos empunhando folhas com total ausência de vida. A ausência de vida parecia ter tomado aquela parte do mundo. Após uma breve pausa fecho os olhos voltando-os para dentro, inconscientemente rebuscando memórias. Sinto que o ar gélido que cortava minha pele cessa.
Abro lentamente os olhos como quem espia por entre as pálpebras em uma brincadeira de criança. A esperança parecia ter trazido ótimos frutos. Um mar de verde irrompe para o interior dos meus olhos. Logo enxergo sua fonte, a grama que envolve meus pés. Eu ainda me encontro nu mas não me importo, porque o sol atinge a minha pele aquecendo-me ternamente. As árvores secas se tornaram vivas, desta vez maiores e possuindo frutos e folhas. O céu reina absolutamente azul e as nuvens dançam conforme o vento sopra e formam todo tipo de coisa imaginável e inimaginável.
Apesar de ter este ambiente eu ainda não me sinto completamente bem. A vida voltara porém eu insistia em me perguntar aonde estava. Se estava. Apartamento, carro, documentos, relógio, dinheiro... quem escondeu "tudo"? Seria a sociedade fundamentada em bens materiais? Poderiam cifras resumir o meu caráter? As coisas que me definem poderiam ser "escondidas" ou trancafinhadas em alguma espécie de cofre? E quanto às minhas experiências vividas? Quanto aos meus sonhos? Quanto às minhas memórias? Parece difícil separar o material do imaterial porém quando conseguirmos fazê-lo com mais facilidade, ficamos mais próximos da verdadeira humanidade.

terça-feira, 19 de julho de 2011

História de Um Brâmane

    Permaneci calado por algum tempo, pois venho incomodado com a filosofia, a razão, e o conhecimento incessante, o qual, incansavelmente busco, sem nem mesmo saber porque. De que adianta tanto conhecimento, que na verdade não passa de alguma subjetividade alheia? 
       De que adianta, buscar incansavelmente soluções para perguntas sem repostas? O fato é que por mais que eu indague e pesquise, jamais saberei de onde vim, porque vim, e para onde vou. E isso me faz sentir o pior dos homens, pois não sei justificar minhas atitudes, quanto menos responder o que sou. Não seria melhor então, não me preocupar com nenhuma destas questões, e simplesmente viver a vida, como deve ser, apenas mais uma peça deste imenso tabuleiro? 
       Em meio a tantas perturbações me deparei, por um leve acaso, com este conto de Voltaire. Exponho ele antes de me posicionar. Assim que conseguir digerir um pouco mais tudo isso volto aqui.
    
História de Um Brâmane
(Voltaire)

      "Encontrei nas minhas viagens um velho brâmane, homem bastante sábio, cheio de espírito e erudição; de resto, era rico, e por isso mesmo ainda mais sábio; pois, como nada lhe faltasse, não tinha necessidade de enganar ninguém. O seu lar era muito bem governado por três belas mulheres que porfiavam em agradar-lhe; e, quando não se divertia com elas, ocupava-se em filosofar.
         Perto de sua casa, que era bonita, bem ornamentada e cercada de encantadores jardins, morava uma velha hindu, imbecil e muito pobre.
      - Quem me dera não ter nascido! - disse-me um dia o brâmane. Perguntei-lhe porquê. - Há quarenta anos que estudo - respondeu-me - e são quarenta anos perdidos: ensino aos outros, e ignoro tudo; esse estado enche-me a alma de tal humilhação e desgosto, que me torna a vida insuportável. Nasci, vivo no tempo, e não sei o que é o tempo; acho-me num ponto entre duas eternidades, como dizem os nossos sábios, e não tenho a mínima ideia da eternidade. Sou composto de matéria, penso, e nunca pude saber por que coisa é produzido o pensamento; ignoro se o meu entendimento é em mim uma simples faculdade, como a de marchar, de digerir, e se penso com a minha cabeça como seguro com as minhas mãos. Não só o princípio do meu pensamento me é desconhecido, mas também o princípio de meus movimentos: não sei por que existo. No entanto, todos os dias me perguntam sobre todos esses assuntos; é preciso responder; nada tenho que preste para lhes comunicar; falo bastante, e fico confuso e envergonhado de mim mesmo após ter falado.
       O pior é quando me perguntam se Brama foi produzido por Vixnu, ou se ambos são eternos. Deus é testemunha de que nada sei a respeito disso, o que bem se vê pelas minhas respostas. - Ah! meu reverendo - imploram-me, - dizei-me como é que o mal inunda toda a terra. - Tenho as mesmas dificuldades que aqueles que me fazem tal pergunta: digo-lhes algumas vezes que tudo vai o melhor possível; mas aqueles que ficaram arruinados ou mutilados na guerra não acreditam nisso, nem eu tampouco: retiro-me acabrunhado da sua curiosidade e da minha ignorância. Vou consultar os nossos antigos livros, e estes duplicam as minhas trevas. Vou consultar os meus companheiros: respondem-me uns que o essencial é gozar a vida e zombar dos homens; outros julgam saber alguma coisa, e perdem-se em divagações; tudo concorre para aumentar o doloroso sentimento que me domina. Sinto-me, às vezes, à borda do desespero, quando penso que, após todas as minhas pesquisas, não sei nem de onde venho, nem o que sou, nem para onde vou, nem o que me tornarei.
       O estado desse excelente homem causou-me verdadeira pena: ninguém tinha mais senso e boa-fé. Compreendi que, quanto mais luzes havia no seu entendimento e mais sensibilidade no seu coração, mais infeliz era ele. 
       Vi, no mesmo dia, a velha sua vizinha: perguntei-lhe se alguma vez se afligira por saber como era a sua alma. Nem chegou a entender minha pergunta: nunca na sua vida refletira um momento sobre um só dos assuntos que atormentavam o brâmane; acreditava de todo o coração nas metamorfoses de Vixnu e, desde que algumas vezes pudesse conseguir água do Ganges para se lavar, julgava-se a mais feliz das mulheres.
       Impressionado com a felicidade daquela pobre criatura, voltei ao meu filósofo e disse-lhe: 
      - Não te envergonhas de ser infeliz, quando mora à tua porta um velho autômato que não pensa em nada e vive contente?
      - Tens razão - respondeu-me ele; - mil vezes disse comigo que seria feliz se fosse tão tolo como a minha vizinha, e no entanto não desejaria tal felicidade.
       Essa resposta causou-me maior impressão que tudo o mais; consultei a minha consciência e vi que na verdade também não desejaria ser feliz sob a condição de ser imbecil. 
      Expus a questão a filósofos, e eles foram da minha opinião. - No entanto - dizia eu, - há uma terrível contradição nessa maneira de pensar. Pois de que se trata, afinal? De ser feliz. Que importa, pois, ter espírito ou ser tolo? Mais ainda: aqueles que estão contentes consigo estão bem certos de estar contentes; mas aqueles que raciocinam não se acham tão certos de bem raciocinar. - É claro - dizia eu - que se deveria preferir não ter senso-comum, uma vez que este contribua, o mínimo que seja, para o nosso mal-estar. Todos foram da minha opinião, e todavia não encontrei ninguém que quisesse aceitar o pacto de se tornar imbecil para andar contente. Donde concluí que, se muito nos importamos com a ventura, mais ainda nos importamos com a razão.
       Mas, refletindo bem, parece uma insensatez preferir a razão à felicidade. Como se explica, pois, tal contradição? Como todas as outras. Aí há muito de que falar."

(Conto retirado de "Primores do Conto Universal. Contos Franceses" )

Gabriel Ornellas

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ser louco ou não ser?

Enquanto centenas de gotas molhadas de água caíam sobre meus já úmidos cabelos, um pensamento atravessou o banheiro como um relâmpago e chocou-se contra a minha mente. "Os loucos têm motivo para a sua loucura, já os normais não têm motivo para a sua normalidade". Sinceramente não sei se este foi um pensamento advindo do interior do meu crânio, onde supostamente se formam as idéias, mas isto não é o mais importante.
Na verdade nem sei se este é um pensamento importante porque o que é importante pra mim pode não o ser para você (esta frase definitivamente não saiu do interior do meu cérebro, na verdade saiu mas outra pessoa a fez mais famosa). As pessoas costumam se ater a parâmetros, fórmulas, métodos e scripts enquanto as coisas e situações que nos deixam boquiabertos sejam simples e espontâneas. Eu prefiro a idiotice espontânea ao sorriso maquinado, engendrado. Prefiro o xingo sentido ao elogio camuflado. Prefiro ser rejeitado a ser aceito de malgrado.
A mania da certeza. Esta ataca a todos os seres humanos com certeza! (até a minha pessoa é claro). Como você pode ter certeza de que tem certeza? É ciclicamente confuso e perturbador. Imagine um cachorro correndo atrás de seu rabo. Imaginou? Este é um ser humano tentando ter certeza de qualquer que seja a coisa da qual ele deseja ter certeza sobre. Você acredita ter certeza no que vê? Então experimente colocar um espelho em frente à um outro espelho. Olhe para qualquer um dos dois por pelo menos dez minutos (sinceramente eu não aguento isso por dois minutos). Ainda tem certeza de que o quê vê é verdade?
Maluquice né (nada como uma ilusão para nos mostrar a "verdade")?! Mas apesar de não termos certeza de nada, somos teimosos em aprender, e isso eu valorizo no ser humano pois a certeza não leva a lugar algum mas a dúvida sim. A dúvida é o combustível dos sábios e a barreira dos preguiçosos, eu acho.
Sem ter certeza de nada mas com um bolso cheio de dúvidas a responder, prossigo viagem com minha mochila suja cheia de idéias e lembranças, com minhas roupas surradas e meu cabelo despenteado tentando escalar a "pelagem do coelho" (o Everest dos "malucos").
Se eu fosse ter certeza de algo, teria certeza de que uma boa e verdadeira gargalhada é uma das melhores coisas do mundo.




Obs.: Para quem não entendeu a "escalada da pelagem do coelho" fica uma dica de ótima leitura, "O mundo de Sofia" de Jostein Gaarder. Não haverá arrependimentos.
Igor Vivo

domingo, 22 de maio de 2011

A insistência da inconsciência.

Por um longo período minhas idéias permaneceram obscuras e embaralhadas e ainda permanecem, porém as vezes o embaralhador das cartas que dão forma à minha psique as vezes se distrai e permite que eu retire uma dessas cartas, turvas e enegrecidas, de minha profunda e ao mesmo tempo superficial inconsciência. Essa extração é angustiante e nada previsível. Pode ser suave e esclarecedora como um raio de sol que atinge uma escrita encoberta, mas pode também ser dolorosa e lacrimosa como caminhar por um tapete de alfinetes.
Estive pensando sobre a solidão.
A solidão acompanha a todos. A solidão não tem classe social nem momento crítico. Ela simplesmente aparece. Entra sem bater à porta e senta ao seu lado no sofá encarando-te docemente, inclina a cabeça e sorri como uma velha amiga, seus lábios pálidos não esboçam nada senão o sorriso que não é nem de alegria muito menos de tristeza. Impossível não a observar atentamente. Com ela o tempo voa lá fora e para aqui dentro. Sua beleza é dolorosa e angustiante.
Enquanto eu volto meus olhos à televisão ela pousa seu lábio em meu rosto, dispersando um sentimento estranho e indefinível (acredito que ela é uma grande amiga da saudade). De repente minha cabeça tomba para trás cedendo ao cansaço e me vejo olhando para as estrelas. O céu fora mais límpido outrora. A angústia que corre atrás de meus olhos de repente é acompanhada pela esperança, essa de que a primeira vá embora, afugentada por um sorriso amigo que me mostre real felicidade em me avistar.
A mão fria e branca da solidão toca a minha e eu me sinto novamente diferente. Agora reparo a indiferença dos meus semelhantes em relação aos mundos paralelos que os rodeiam. Tantas histórias, tantas verdades e tantas mentiras.
A solidão chama meu nome com sua voz melodiosa e me diz que vai embora, vai embora porque sabe que não sou só e que ninguém o é. Diz que vai embora mas que com certeza irá voltar, breve ou demoradamente, mas que irá voltar. E então seus lábios e mãos me tocarão novamente. Farão exatamente o mesmo para me lembrar que tenho muita coisa a valorizar que me cerca diariamente.
A solidão para mim é uma amiga, é uma entidade misteriosa e bela, seu significado pode ser ruim dependendo do ângulo como a enxergamos, mas se procurarmos a beleza no significado das coisas e se desatarmos o pano que cobre nossas vistas para enxergar o que realmente importa, veremos que a solidão nos traz de volta a si, e que sem ela os nossos egos poderiam ter um crescimento impetuoso e desenfreado nos tornando pessoas intragáveis.

Obs.: Hoje tive uma longa conversa com a solidão. Ela me mostrou algumas coisas. Nem todas são fáceis de entender ou aceitar. Mas eu continuo a acreditar que a vida sempre irá acertar e que os humanos tendem a tentar endireitar aquilo que deve ser, por natureza própria, tortuoso.
Igor Vivo

domingo, 20 de março de 2011

O que você tem feito da vida?

Tic...tac...tic...tac... Mal começa o dia e um estrondo metálico/eletrônico irrompe na madrugada silenciosa compondo a sinfonia da manhã mais temida e menos aguardada por muitos, a do despertador, que põe milhares em pé todos os dias. Olhos vermelhos pedem cama enquanto seus donos limpam suas cacas remelentas que insistem em retornar mais úmidas e menos grudentas aos olhos menos vermelhos. O dia mal começa e pensamentos latentes e impertinentes cintilam como um faróis de xenon focados nos olhos de mentes perturbadas. Prazos, metas, juros, contas, reuniões... E cada vez mais a brincadeira de casinha vai ficando muito séria, séria até demais.
Muitos zombam dos considerados loucos, desprendidos e despragmatizados, porém como disse Augusto Cury em "O vendedor de Sonhos" - ... os loucos são aqueles que elaboram as teorias usadas pelos considerados normais - e isso definitivamente gera uma controvérsia. Os "normais" zombam do fato de os "loucos" não terem idéias fixas, planos de carreira ou de família e de seu "descompromisso" com a realidade. De fato realidade é sobre o que eles mais sabem. O engraçado em tudo isto é que alguns destes "normais" desejam ardentemente, em momentos de "devaneio" (é claro), ser como os malucos desprendidos. Isso porque a brincadeira de casinha entedia e a pergunta que não quer calar vem a tona. "O que eu estou fazendo nesse mundo?". Todo aquele planejamento , metas e objetivos mesmo que atingidos não são suficientes para apaziguar a borbulha e inquietação causadas pela pergunta filosófica, as vezes levando o indivíduo à "loucura" (ou seria isto um bem que nos tornasse voltados "normalidade"?). Conceitos de loucura e normalidade são muito abstratos quando analisados por um ponto de vista filosófico e podem confundir mentes "esclarecidas", portanto não os discutirei.
Mesmo assim, felizes são aqueles que têm essa pergunta na mente, pois muitos sequer chegam a refletir sobre tal questão. Felizes porque têm tempo de observar o que têm feito da vida, analisar suas personalidades, relacionamentos e descobrirem a si mesmos buscando viver o que querem e não o que um sistema falido espera que vivam. A rotina cansa, cala, diminui e faz com que nos "acostumemos" a ela.
Engraçada a matemática das coisas. Alguns planejam e conseguem alcançar "seus" objetivos (que, volto a dizer, na maioria dos casos pertence à uma coletividade abstrata [alguns insistem em chamar de sistema, hoje falido] ), mas mesmo alcançando "seus" objetivos no fim das contas nada têm. Enquanto outros, imersos em suas "maluquices particulares", tomados pela vida e suas imensas proporções, sempre terão algo de interessante para contar aos netos, seja sobre sua intensa e incansável viagem em mundos particulares que por sermos humanos tendem a coincidir, pelo menos em parte, com mundos particulares de outras pessoas (incrível a capacidade humana de sermos, ao mesmo tempo, diferentes e iguais uns aos outros), seja sobre viagens e descobertas externas que adicionam experiências inestimáveis à cultura humana.
Novamente pergunto, o que você tem feito da vida? (e não o que ela tem feito de você). Pensemos um pouco, talvez nunca cheguemos a uma resposta... e quem disse que precisamos dela. Talvez só a reflexão seja suficiente.
Igor Vivo

quarta-feira, 2 de março de 2011

Merda no ventilador

Escolhas iguais, padrões estabelecidos, "sutis" sugestões, programas, paradigmas e mitos. Toda esta merda criada pelos meios de comunicação (todos eles) leva as pessoas a um brejo úmido e fétido de controle ou apassivamento mental (tem porcaria voando para todo o lado). Não pense, deixe que pensemos por você! E por uma barganha! Basta assinar aqui e pagar no caixa ao lado. Livre-se das perturbações mentais! Não seja mais um "esquisito" ou "idiota"! Tome este remedinho e estará "são" instantaneamente. Tenha total conforto!
A cadeia do pensamento foi aberta meus caros e ela é linda, deslumbrante e hipnótica atraindo os mais diversos públicos até mesmo aqueles que a criaram. Um fato contraditório é que a mesma cadeia possui os meios para abrir nossos pensamentos, porém isso é desconfortável e chato (acham os confortados e "legais"). Um senhor disse algo, escrito por uma senhora: "o ser humano tem a incrível capacidade de escolher o que há de pior para sí". Realmente isso pode ser provado pela história. Santos Dummond inventa o avião, incrível, sensacional, finalmente o homem ganha asas. Aí vem um imbecil e inventa os bombardeiros. O homem descobre a pólvora e outro idiota inventa as bombas e armas de fogo. Há muitas destas provas muito bem conhecidas pela humanidade na nossa história e mesmo assim o homem insiste em tornar idéias ótimas em porcaria ambulante (não todos os homens claro).
Atualmente tenho alguns péssimos exemplos, claro que não tão mortalmente avassaladores quanto os acima citados, mas péssimos exemplos. Twitter, Orkut, Facebook e outros, vêm sendo utilizados como borrifadores de fezes mentais. Não critico as ferramentas, mas as mãos que as utilizam. O que estamos fazendo com esse belo presente cinza que ganhamos de nossos pais (vulgo massa cefálica)? Quem duvidar da quantidade de asneiras, que passeie pelas páginas dessas incríveis invenções de conectividade humana. Aquele que navegar pelas que mais se assemelham às ruas da época medieval (onde pessoas jogavam suas fezes e urinas nas ruas pelas janelas das casas), e não for atingido retorne a esta página e diga seu nome, ficarei realmente feliz em sabê-lo. É óbvio que existem conteúdos esplêndidos em tais redes sociais, mas infelizmente a predominância é fétida.
Existem coisas fantásticas nesses sites, belos pensamentos, e devemos multiplicar tais conteúdos. O controle sempre esteve em nossas mãos e por isso não podemos criticar o "sistema" ou a "ferramenta", pois quem escreve ou dá a vida ao sistema somos nós. Vale lembrar que é sadio pensar idiotamente, pois eu não estou pedindo um mundo de pessoas sisudas e infelizes, e sim, um mundo de pessoas mais críticas. O que me preocupa é a relação porcarias/pensamentos, ou vice versa, pois um dos dois vem ganhando de goleada. Peço que tentemos equilibrar as quantidades, só isso. E que pensemos, tanto no que "parece" brilhante quanto no que "parece" idiota.
Igor Vivo

domingo, 30 de janeiro de 2011

Netweaving, Desobedeça !

   Netweaving faz referência a alguma coisa como “a arte de tecer redes” (evocando aquela expressão de Platão, no diálogo “O Político” – a “arte do tecelão” – que seria perfeita se o autor não tivesse atribuído tal arte a um sujeito autocrático: o sábio governante). Um netweaver é, por definição, um desobediente. Porque é alguém que, criativamente, caminha fora dos trilhos já estabelecidos por alguém. Logo, desobedeça! Aprenda a desobedecer!
   Mas a quem você deve desobedecer?
   Ora, a todos que querem obrigá-lo a obedecer. Em especial aos agentes de um velho mundo hierárquico e autocrático cujos alicerces já estão apodrecendo, mas que continua, insistentemente, a nos assombrar. Dentre tais agentes, que são muitos, merecem ser destacados aqui: os ensinadores, os codificadores de doutrinas, os aprisionadores de corpos, os construtores de pirâmides, os fabricantes de guerras e os condutores de rebanhos.
   DESOBEDEÇA aos ensinadores, que dizer, à burocracia privadora do conhecimento: aquela casta sacerdotal que constitui as escolas e academias. Essas instituições geraram e continuam gerando um tipo curioso de agente que proliferou na modernidade: o "Colecionador" de diplomas, que julga as outras pessoas pela sua capacidade de se enquadrar nos processos de ensinagem em vez de avaliá-las pela sua capacidade de aprendizagem. Os diplomas são, então, um reconhecimento e uma validação do conhecimento ensinado e não do conhecimento aprendido. Tendo perdido o monopólio do conhecimento (se é que algum dia tiveram-no) as universidades tentam ainda reter em suas mãos o que lhes restou: o monopólio dos diplomas. Há também os que – por fora dos sistemas formais de ensino - se intitulam (ou são por alguém intitulados) mestres. E querem então imprimi-lo, emprenhá-lo, ou seja, enxertar suas idéias-implante em você, para que você se torne também um transmissor das idéias dele. Desobedeça a esses caras. Aprenda o que você quiser, quando quiser e do jeito que você quiser. Aprenda com seus amigos. E compartilhe o que aprendeu com quem você quiser, gerando mais conhecimento. Conhecimento trancado apodrece. E não siga mestres de qualquer tipo: todos somos aprendentes, inclusive os mestres. Logo, enquanto eles estiverem pensando em conquistar discípulos, fuja dos “mestres”!
   DESOBEDEÇA aos codificadores de doutrinas, que são todos aqueles que querem pavimentar, com as suas crenças religiosas e políticas, uma estrada para o futuro. Eles produzem narrativas ideológicas totalizantes para que você veja o mundo a partir da sua ótica, quer dizer, para que você não veja os múltiplos mundos existentes, mas apenas um mundo (o mundo arquitetado e administrado por eles: uma prisão para a sua imaginação). Tais codificadores de doutrinas, urdem a base conceitual para a formação de correntes e grupos de opinião onde a (livre) opinião propriamente dita não conta para quase nada: o que conta é a ortodoxia de uma opinião oficial ou canônica, a qual tentam autenticar apelando para a revelação ou para a ciência. São manipuladores de idéias que inventam passado para legitimar certos caminhos (e deslegitimar outros) para o futuro. Fazem isso para controlar o seu futuro, para levá-lo (a sua alma ou o seu corpo) para algum lugar supostamente melhor, para um paraíso no céu ou na terra, quando, eles mesmos, não podem conhecer tal caminho (simplesmente porque não existe). Desobedeça a essa gente. Não entre em suas armações, não replique seus discursos: pense com sua própria cabeça. Ria dos seus vaticínios e ameaças e ponha-se fora do alcance de suas patrulhas. Saia dos trilhos que eles assentaram. Recuse tudo isso: faça o seu próprio caminho.
   DESOBEDEÇA aos aprisionadores de corpos, que não contentes em usar, comprar ou alugar, sua inteligência humana (que não tem preço), querem também mantê-lo cativo, fisicamente, nos seus prédios ou cercados. São feitores: antes usavam o chicote; hoje usam o relógio ou o livro de ponto, o crachá magnético ou o banco de horas. Nas empresas ou organizações hierárquicas, sejam privadas ou públicas, seqüestram seu corpo para manter você por perto, para poder vigiá-lo, para terem certeza de que você está de fato trabalhando para eles. Não precisavam fazer isso se o seu objetivo fosse o de articular um trabalho coletivo compartilhado. Mas o objetivo deles não é, na verdade, compartilhar nada com outros seres humanos e sim controlá-los-e-comandá-los, em certo sentido desumanizá-los, embotando sua inteligência, castrando sua criatividade, alquebrando sua vontade, para poder usá-los como objetos, para terem-nos disponíveis, sempre à mão, tantas horas por dia: querem um rebanho de servos de prontidão para lhes fazer as vontades. Se quisessem que as pessoas trabalhassem com-eles e não para-eles não seria necessário – na imensa maioria dos casos – aprisionar os seus corpos: bastaria estabelecer uma agenda conjunta, com tarefas e prazos, assim como fazem as empresas geridas pela famosa "geração Y". Desobedeça a esse pessoal. Monte seu próprio empreendimento individual ou coletivo. Corra atrás do seu próprio sonho ao invés de servir de instrumento para realizar o sonho alheio. Sim, você é capaz. A evolução investiu quatro bilhões de anos desenvolvendo seu hardware, que é igualzinho ao daquele cara esperto que quer capturá-lo e aprisioná-lo e que ainda por cima tem a desfaçatez de alegar que está fazendo um bem para a humanidade por lhe oferecer um emprego.
   DESOBEDEÇA aos construtores de pirâmides, que são os que erigem organizações hierárquicas de todo tipo para mandar nos outros e obrigá-los a fazer (ou deixar de fazer) coisas contra a sua vontade ou sem o seu consentimento ou assentimento ativo. Desobedecer significa também abrir mão de mandar. Você é capturado pelo jogo perverso da obediência quando quer que as pessoas lhe obedeçam. Desobedeça a esses chefes, em primeiro lugar, cortando o barato daquele “construtorzinho de pirâmide” que mora aí dentro de você. E, sobretudo, abra mão de querer mandar nos outros. Em vez de arquitetar organizações tradicionais, a partir de organogramas centralizados, para realizar qualquer projeto ou trabalho, teça redes: quase tudo que se organizou até agora de forma hierárquica (com estrutura centralizada) pode ser organizado em forma de rede (com estrutura distribuída); menos, é claro, os sistemas de comando-e-controle. Em segundo lugar, nunca se enquadre docemente em sistemas de comando-e-controle. Se for obrigado a tanto para sobreviver, por um período (que não pode ser muito longo), faça-o resignadamente, mas sempre resistindo. Isso significa: não se curve a seu chefe, não lhe faça as vontades, vamos dizer assim, tão solicitamente. Não seja tão prestativo, subserviente, serviçal. Não caminhe um quilômetro a mais para agradá-lo. Não fique na penumbra, recuado, servindo de escada para ele subir ou se destacar. Não faça o jogo.
   DESOBEDEÇA aos fabricantes de guerras, que são, stricto sensu, os chefes militares e, lato sensu, os que pervertem a política como arte da guerra e os que se entregam à competição adversarial tendo como objetivo destruir seus concorrentes. São, todos, predadores. O predador é uma máquina de converter o semelhante em inimigo. Mas é preciso considerar que não existem inimigos naturais ou permanentes: toda inimizade é circunstancial e pode ser desconstituída pela aceitação do outro no próprio espaço de vida, pelo acolhimento, pelo diálogo, pela cooperação. Assim, o (único) inimigo que existe mesmo é o fazedor de inimigos. É por isso que nos apegamos tanto à guerra do bem contra o mal. Mas o problema, como disse Schmookler, é que o recurso da guerra é em si o mal. Desobedeça a esses hierarcas. Recuse-se a entrar em organizações militares ou para-militares de qualquer tipo. Recuse-se a entrar em qualquer organização política de combate, que pregue que o bem só será alcançado com a destruição do mal. Recuse-se a olhar o diferente como adversário em princípio: em princípio todo ser humano é um potencial parceiro de outro ser humano, não um inimigo. Recuse-se a construir inimigos. 
   DESOBEDEÇA aos condutores de rebanhos, que são, em geral, os líderes que alcançaram popularidade para guiar as massas. Algumas vezes esses líderes são carismáticos e se dedicam a mesmerizar multidões em comícios, reuniões e manifestações. Quase sempre são pessoas “pesadas”, que usam sua gravitatem em benefício próprio ou de um grupo, para reter em suas mãos o poder pelo maior tempo que for possível, transformando os outros em seus satélites. E odeiam os princípios de rotatividade ou alternância democrática. O liderancismo é uma praga que vem contaminando as organizações de todos os setores: segundo tal ideologia, a liderança só é boa se não puder ser exercida por todos, só por alguns. Assim, não se deve estimular a multiliderança, senão afirmar a precedência da mono-liderança, do líder providencial e permanente, a prevalência do mesmo líder em todos os assuntos e atividades, como se essa – a liderança – fosse uma qualidade rara, de origem genética ou fruto de uma unção extra-humana. Desobedeça a esses líderes. Não os siga para parte alguma. Não se deixe conduzir, ser puxado pelo nariz ou guiado pelo cabresto como se fosse uma cavalgadura. Não existem guias geniais dos povos. Nos sistemas representativos, as pessoas que você elegeu são seus empregados (mandatados pelos eleitores), não seus patrões. “Inclua-se fora” dessas listas de excluídos que ficam olhando para cima de boca aberta, esperando pelas benesses de um salvador (pois o simples fato de pertencer a elas já é um indicador de exclusão, quer dizer, de incapacidade de pensar por si mesmo e de andar com as próprias pernas). Toda pessoa, se estiver disposta a desobedecer, será um alguém (com nome reconhecido) fora da massa, não apenas um número em uma estatística. Toda pessoa que desobedece, em um mundo ainda infestado por organizações hierárquicas, é um ponto fora da curva: alguém único, singular, insubstituível.
   
 QUEBRANDO O CÍRCULO VICIOSO DO PODER
   Não queremos aqui instituir nenhuma organização anárquica, quanto menos um grupo causador de badernas e de caos, e sim, o rompimento com a atual estrutura hierárquica e oligárquica, onde a população funciona como peças do jogo dos "donos do jogo", DESOBEDEÇA os jogadores.
   Em que medida você tem coragem de desobedecer e arcar com as conseqüências? A resposta a essa pergunta define o seu campo de liberdade e de possibilidade. Dependendo das circunstâncias, desobedecer pode acarretar demissão, reprovação, agressão, perseguição, condenação, prisão, tortura, mutilação e morte. Você não deve se suicidar. Quando não há condições objetivas para desobedecer (ou seja, quando isso colocar em risco a sua vida ou a vida de terceiros, a sua liberdade ou a liberdade de seus semelhantes) você deve avaliar cuidadosamente os riscos e as possibilidades. Mas nunca deve deixar de desobedecer interiormente. O que importa aqui é sua atitude, vamos dizer assim, espiritual, de desobediência. Não se curve, não se abaixe, não se deixe instrumentalizar, não se conforme em ser mandado, não colabore (voluntariamente) com o poder vertical. Desobedecer é, antes de qualquer coisa, resistir.
(Texto baseado em publicações da Escola de Redes - Franco, Augusto)
Gabriel Ornellas

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O que é preciso pra ser feliz?

Ao ver sorrisos que constantemente aparecem em rostos de bebês e crianças, mesmo naquelas que possuem inúmeras dificuldades, penso que a felicidade é inata ao ser humano. Mas por que, conforme crescemos aquela fácil felicidade torna-se "complicada"?
Quando bebês a nossa facilidade de nos impressionar com as coisas é fantástica. Isso pois estamos num "mundo novo" recebendo novos estímulos e vibrações. Portanto este deslumbramento com as novas possibilidades por mais simples que sejam, tais como pássaros cantando, o movimento de penduricalhos no berço causado pelo vento ou o monte de adultos balbuciando coisas "sem sentido" nos fazem rir.
Crescemos um pouco, aprendemos a falar e devido a uma tentativa de proteção paternal contra as coisas "ruins" do mundo, nossos pais insistem em colocar bixos papões, homens do saco e fantasmas em nossas cabeças. O fato é que estes paradigmas limitam as nossas mentes e ideias tornando nosso contato com a simplicidade das coisas menos forte.
Conforme chega a adolescência a tendência é que o nosso contato com as "coisas simples da vida" se torne ainda mais frágil, seja devido à problemas nos relacionamentos (familiares ou amorosos) ou ainda pelo estresse causado pela temporada dos vestibulares, tentativas frustradas de conseguir um emprego, instabilidade quando se arranja um, etc. (talvez não haja outra palavra sequer mais apropriada do que etc.). Ainda existem aquelas coisinhas como "ter" de manter a aparência, lavar o carro para chamar a atenção feminina, usar roupas ou calçados desconfortáveis para chamar a atenção masculina e novamente etc. (é longa a lista de "requisitos" do mundo "moderno").
Tudo parece ser inalcançável, impossível de se obter. E talvez seja, pois são muitas as "obrigações". Mas quem disse que temos de seguir toda essa porcaria?
O fato é que ao olharmos para uma criança, remetemo-nos à simplicidade das coisas. Percebemos que ela precisa de tão pouco para ser tão mais feliz do que muitos dos que subestimam sua inteligência. E talvez seja essa a fonte de felicidade, a lembrança do quão facilmente andar de bicicleta à tarde sob intensa chuva pelo parque ou simplesmente passar o dia discutindo sobre coisas abstratas e até "malucas" com grandes amigos podem nos fazer extremamente felizes, retornando assim à bela e simples simplicidade.
Igor Vivo