domingo, 30 de janeiro de 2011

Netweaving, Desobedeça !

   Netweaving faz referência a alguma coisa como “a arte de tecer redes” (evocando aquela expressão de Platão, no diálogo “O Político” – a “arte do tecelão” – que seria perfeita se o autor não tivesse atribuído tal arte a um sujeito autocrático: o sábio governante). Um netweaver é, por definição, um desobediente. Porque é alguém que, criativamente, caminha fora dos trilhos já estabelecidos por alguém. Logo, desobedeça! Aprenda a desobedecer!
   Mas a quem você deve desobedecer?
   Ora, a todos que querem obrigá-lo a obedecer. Em especial aos agentes de um velho mundo hierárquico e autocrático cujos alicerces já estão apodrecendo, mas que continua, insistentemente, a nos assombrar. Dentre tais agentes, que são muitos, merecem ser destacados aqui: os ensinadores, os codificadores de doutrinas, os aprisionadores de corpos, os construtores de pirâmides, os fabricantes de guerras e os condutores de rebanhos.
   DESOBEDEÇA aos ensinadores, que dizer, à burocracia privadora do conhecimento: aquela casta sacerdotal que constitui as escolas e academias. Essas instituições geraram e continuam gerando um tipo curioso de agente que proliferou na modernidade: o "Colecionador" de diplomas, que julga as outras pessoas pela sua capacidade de se enquadrar nos processos de ensinagem em vez de avaliá-las pela sua capacidade de aprendizagem. Os diplomas são, então, um reconhecimento e uma validação do conhecimento ensinado e não do conhecimento aprendido. Tendo perdido o monopólio do conhecimento (se é que algum dia tiveram-no) as universidades tentam ainda reter em suas mãos o que lhes restou: o monopólio dos diplomas. Há também os que – por fora dos sistemas formais de ensino - se intitulam (ou são por alguém intitulados) mestres. E querem então imprimi-lo, emprenhá-lo, ou seja, enxertar suas idéias-implante em você, para que você se torne também um transmissor das idéias dele. Desobedeça a esses caras. Aprenda o que você quiser, quando quiser e do jeito que você quiser. Aprenda com seus amigos. E compartilhe o que aprendeu com quem você quiser, gerando mais conhecimento. Conhecimento trancado apodrece. E não siga mestres de qualquer tipo: todos somos aprendentes, inclusive os mestres. Logo, enquanto eles estiverem pensando em conquistar discípulos, fuja dos “mestres”!
   DESOBEDEÇA aos codificadores de doutrinas, que são todos aqueles que querem pavimentar, com as suas crenças religiosas e políticas, uma estrada para o futuro. Eles produzem narrativas ideológicas totalizantes para que você veja o mundo a partir da sua ótica, quer dizer, para que você não veja os múltiplos mundos existentes, mas apenas um mundo (o mundo arquitetado e administrado por eles: uma prisão para a sua imaginação). Tais codificadores de doutrinas, urdem a base conceitual para a formação de correntes e grupos de opinião onde a (livre) opinião propriamente dita não conta para quase nada: o que conta é a ortodoxia de uma opinião oficial ou canônica, a qual tentam autenticar apelando para a revelação ou para a ciência. São manipuladores de idéias que inventam passado para legitimar certos caminhos (e deslegitimar outros) para o futuro. Fazem isso para controlar o seu futuro, para levá-lo (a sua alma ou o seu corpo) para algum lugar supostamente melhor, para um paraíso no céu ou na terra, quando, eles mesmos, não podem conhecer tal caminho (simplesmente porque não existe). Desobedeça a essa gente. Não entre em suas armações, não replique seus discursos: pense com sua própria cabeça. Ria dos seus vaticínios e ameaças e ponha-se fora do alcance de suas patrulhas. Saia dos trilhos que eles assentaram. Recuse tudo isso: faça o seu próprio caminho.
   DESOBEDEÇA aos aprisionadores de corpos, que não contentes em usar, comprar ou alugar, sua inteligência humana (que não tem preço), querem também mantê-lo cativo, fisicamente, nos seus prédios ou cercados. São feitores: antes usavam o chicote; hoje usam o relógio ou o livro de ponto, o crachá magnético ou o banco de horas. Nas empresas ou organizações hierárquicas, sejam privadas ou públicas, seqüestram seu corpo para manter você por perto, para poder vigiá-lo, para terem certeza de que você está de fato trabalhando para eles. Não precisavam fazer isso se o seu objetivo fosse o de articular um trabalho coletivo compartilhado. Mas o objetivo deles não é, na verdade, compartilhar nada com outros seres humanos e sim controlá-los-e-comandá-los, em certo sentido desumanizá-los, embotando sua inteligência, castrando sua criatividade, alquebrando sua vontade, para poder usá-los como objetos, para terem-nos disponíveis, sempre à mão, tantas horas por dia: querem um rebanho de servos de prontidão para lhes fazer as vontades. Se quisessem que as pessoas trabalhassem com-eles e não para-eles não seria necessário – na imensa maioria dos casos – aprisionar os seus corpos: bastaria estabelecer uma agenda conjunta, com tarefas e prazos, assim como fazem as empresas geridas pela famosa "geração Y". Desobedeça a esse pessoal. Monte seu próprio empreendimento individual ou coletivo. Corra atrás do seu próprio sonho ao invés de servir de instrumento para realizar o sonho alheio. Sim, você é capaz. A evolução investiu quatro bilhões de anos desenvolvendo seu hardware, que é igualzinho ao daquele cara esperto que quer capturá-lo e aprisioná-lo e que ainda por cima tem a desfaçatez de alegar que está fazendo um bem para a humanidade por lhe oferecer um emprego.
   DESOBEDEÇA aos construtores de pirâmides, que são os que erigem organizações hierárquicas de todo tipo para mandar nos outros e obrigá-los a fazer (ou deixar de fazer) coisas contra a sua vontade ou sem o seu consentimento ou assentimento ativo. Desobedecer significa também abrir mão de mandar. Você é capturado pelo jogo perverso da obediência quando quer que as pessoas lhe obedeçam. Desobedeça a esses chefes, em primeiro lugar, cortando o barato daquele “construtorzinho de pirâmide” que mora aí dentro de você. E, sobretudo, abra mão de querer mandar nos outros. Em vez de arquitetar organizações tradicionais, a partir de organogramas centralizados, para realizar qualquer projeto ou trabalho, teça redes: quase tudo que se organizou até agora de forma hierárquica (com estrutura centralizada) pode ser organizado em forma de rede (com estrutura distribuída); menos, é claro, os sistemas de comando-e-controle. Em segundo lugar, nunca se enquadre docemente em sistemas de comando-e-controle. Se for obrigado a tanto para sobreviver, por um período (que não pode ser muito longo), faça-o resignadamente, mas sempre resistindo. Isso significa: não se curve a seu chefe, não lhe faça as vontades, vamos dizer assim, tão solicitamente. Não seja tão prestativo, subserviente, serviçal. Não caminhe um quilômetro a mais para agradá-lo. Não fique na penumbra, recuado, servindo de escada para ele subir ou se destacar. Não faça o jogo.
   DESOBEDEÇA aos fabricantes de guerras, que são, stricto sensu, os chefes militares e, lato sensu, os que pervertem a política como arte da guerra e os que se entregam à competição adversarial tendo como objetivo destruir seus concorrentes. São, todos, predadores. O predador é uma máquina de converter o semelhante em inimigo. Mas é preciso considerar que não existem inimigos naturais ou permanentes: toda inimizade é circunstancial e pode ser desconstituída pela aceitação do outro no próprio espaço de vida, pelo acolhimento, pelo diálogo, pela cooperação. Assim, o (único) inimigo que existe mesmo é o fazedor de inimigos. É por isso que nos apegamos tanto à guerra do bem contra o mal. Mas o problema, como disse Schmookler, é que o recurso da guerra é em si o mal. Desobedeça a esses hierarcas. Recuse-se a entrar em organizações militares ou para-militares de qualquer tipo. Recuse-se a entrar em qualquer organização política de combate, que pregue que o bem só será alcançado com a destruição do mal. Recuse-se a olhar o diferente como adversário em princípio: em princípio todo ser humano é um potencial parceiro de outro ser humano, não um inimigo. Recuse-se a construir inimigos. 
   DESOBEDEÇA aos condutores de rebanhos, que são, em geral, os líderes que alcançaram popularidade para guiar as massas. Algumas vezes esses líderes são carismáticos e se dedicam a mesmerizar multidões em comícios, reuniões e manifestações. Quase sempre são pessoas “pesadas”, que usam sua gravitatem em benefício próprio ou de um grupo, para reter em suas mãos o poder pelo maior tempo que for possível, transformando os outros em seus satélites. E odeiam os princípios de rotatividade ou alternância democrática. O liderancismo é uma praga que vem contaminando as organizações de todos os setores: segundo tal ideologia, a liderança só é boa se não puder ser exercida por todos, só por alguns. Assim, não se deve estimular a multiliderança, senão afirmar a precedência da mono-liderança, do líder providencial e permanente, a prevalência do mesmo líder em todos os assuntos e atividades, como se essa – a liderança – fosse uma qualidade rara, de origem genética ou fruto de uma unção extra-humana. Desobedeça a esses líderes. Não os siga para parte alguma. Não se deixe conduzir, ser puxado pelo nariz ou guiado pelo cabresto como se fosse uma cavalgadura. Não existem guias geniais dos povos. Nos sistemas representativos, as pessoas que você elegeu são seus empregados (mandatados pelos eleitores), não seus patrões. “Inclua-se fora” dessas listas de excluídos que ficam olhando para cima de boca aberta, esperando pelas benesses de um salvador (pois o simples fato de pertencer a elas já é um indicador de exclusão, quer dizer, de incapacidade de pensar por si mesmo e de andar com as próprias pernas). Toda pessoa, se estiver disposta a desobedecer, será um alguém (com nome reconhecido) fora da massa, não apenas um número em uma estatística. Toda pessoa que desobedece, em um mundo ainda infestado por organizações hierárquicas, é um ponto fora da curva: alguém único, singular, insubstituível.
   
 QUEBRANDO O CÍRCULO VICIOSO DO PODER
   Não queremos aqui instituir nenhuma organização anárquica, quanto menos um grupo causador de badernas e de caos, e sim, o rompimento com a atual estrutura hierárquica e oligárquica, onde a população funciona como peças do jogo dos "donos do jogo", DESOBEDEÇA os jogadores.
   Em que medida você tem coragem de desobedecer e arcar com as conseqüências? A resposta a essa pergunta define o seu campo de liberdade e de possibilidade. Dependendo das circunstâncias, desobedecer pode acarretar demissão, reprovação, agressão, perseguição, condenação, prisão, tortura, mutilação e morte. Você não deve se suicidar. Quando não há condições objetivas para desobedecer (ou seja, quando isso colocar em risco a sua vida ou a vida de terceiros, a sua liberdade ou a liberdade de seus semelhantes) você deve avaliar cuidadosamente os riscos e as possibilidades. Mas nunca deve deixar de desobedecer interiormente. O que importa aqui é sua atitude, vamos dizer assim, espiritual, de desobediência. Não se curve, não se abaixe, não se deixe instrumentalizar, não se conforme em ser mandado, não colabore (voluntariamente) com o poder vertical. Desobedecer é, antes de qualquer coisa, resistir.
(Texto baseado em publicações da Escola de Redes - Franco, Augusto)
Gabriel Ornellas

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O que é preciso pra ser feliz?

Ao ver sorrisos que constantemente aparecem em rostos de bebês e crianças, mesmo naquelas que possuem inúmeras dificuldades, penso que a felicidade é inata ao ser humano. Mas por que, conforme crescemos aquela fácil felicidade torna-se "complicada"?
Quando bebês a nossa facilidade de nos impressionar com as coisas é fantástica. Isso pois estamos num "mundo novo" recebendo novos estímulos e vibrações. Portanto este deslumbramento com as novas possibilidades por mais simples que sejam, tais como pássaros cantando, o movimento de penduricalhos no berço causado pelo vento ou o monte de adultos balbuciando coisas "sem sentido" nos fazem rir.
Crescemos um pouco, aprendemos a falar e devido a uma tentativa de proteção paternal contra as coisas "ruins" do mundo, nossos pais insistem em colocar bixos papões, homens do saco e fantasmas em nossas cabeças. O fato é que estes paradigmas limitam as nossas mentes e ideias tornando nosso contato com a simplicidade das coisas menos forte.
Conforme chega a adolescência a tendência é que o nosso contato com as "coisas simples da vida" se torne ainda mais frágil, seja devido à problemas nos relacionamentos (familiares ou amorosos) ou ainda pelo estresse causado pela temporada dos vestibulares, tentativas frustradas de conseguir um emprego, instabilidade quando se arranja um, etc. (talvez não haja outra palavra sequer mais apropriada do que etc.). Ainda existem aquelas coisinhas como "ter" de manter a aparência, lavar o carro para chamar a atenção feminina, usar roupas ou calçados desconfortáveis para chamar a atenção masculina e novamente etc. (é longa a lista de "requisitos" do mundo "moderno").
Tudo parece ser inalcançável, impossível de se obter. E talvez seja, pois são muitas as "obrigações". Mas quem disse que temos de seguir toda essa porcaria?
O fato é que ao olharmos para uma criança, remetemo-nos à simplicidade das coisas. Percebemos que ela precisa de tão pouco para ser tão mais feliz do que muitos dos que subestimam sua inteligência. E talvez seja essa a fonte de felicidade, a lembrança do quão facilmente andar de bicicleta à tarde sob intensa chuva pelo parque ou simplesmente passar o dia discutindo sobre coisas abstratas e até "malucas" com grandes amigos podem nos fazer extremamente felizes, retornando assim à bela e simples simplicidade.
Igor Vivo