Deus, o todo poderoso criador de tudo e de todos, será ? Para um pensador, não cabe apenas crer em Deus e sim entender o que e quem ele é. Não cabe aqui, quaisquer que sejam, críticas religiosas quanto menos em crenças sejam elas quais forem, contudo, um ser procurado por tantos povos, etnias, e gerações, nos desperta curiosidade. Como surgiu o mundo? Porque e com qual finalidade estamos aqui? Será que Deus criou tudo isso e nos colocou aqui como fantoches de um de seus "teatrinhos"?
Existem diversas formas de se acreditar em Deus e todas levam ao mesmo destino, a Fé e às glórias alcançadas quando se acredita fielmente em algo. Será que Deus é um telespectador de nossas vidas, ou seja, uma peça externa ao nosso cotidiano? Não, Deus é tudo e tudo que existe é Deus. Segundo os panteístas, Deus não é alguém que criou o mundo um dia e desde então é uma entidade à parte de sua criação. Não. Deus é o mundo. A principal convicção é que Deus, ou força divina, está presente no mundo e permeia tudo o que nele existe. No Areópago do Antigo Testamento tem-se um discurso do apóstolo Paulo: "Porque nele vivemos, nos movemos e existimos".
Sendo tudo Deus e Deus tudo, até onde vai nosso livre arbítrio? Se Deus realmente é tudo, nós somos uma parte de Deus, e assim sendo, nossos pensamentos, desejos, bem como manifestações físicas são vontades de Deus. É claro que tal argumento é frágil uma vez que você pode andar, pensar, e criar por si, mas será que Deus ou a Natureza, como assim chamava o filósofo Baruch Spinoza, não estaria andando pensando ou criado em você? É tudo uma questão da forma em que analisamos. Mas não, Spinoza não afirmava que o indivíduo não era capaz de determinar o que poderia fazer, contudo, existem limitações. Talvez você possa mover seu polegar ao bel-prazer, mas o polegar só pode ser movido de acordo com sua própria natureza. Ele não pode saltar da sua mão e sair pulando por ai. Da mesma forma, você também tem o seu lugar no todo. Segundo Spinoza, você é um ser singular, mas também é um dedo no corpo de Deus.
Imagine o seguinte. Um menino na idade da pedra, que com o tempo cresce, atira sua lança em animais, ama uma mulher e com ela tem filhos e, pode estar certo, adorou os deuses de sua tribo. O que passa em sua cabeça quando afirma que ele mesmo decidiu tudo isso? Ou melhor, um leão em uma savana. Você acredita que ele optou por viver como animal predador? E por causa disso ataca um antílope cansado? Será que ele não poderia viver como vegetariano? Não, pois o leão vive de acordo as suas leis, ou de acordo com as leis de Deus(natureza). O mesmo acontece com todos nós, pois também somos natureza. Agora imagine os seres humanos. Um recém-nascido, quando ele tem fome, se não lhe dão leite ele chora e coloca o dedo na boca para mamar. Será que este bebê possuiu livre arbítrio? E quando está criança, uma menina, digamos, passa ter livre-arbítrio? Aos dois anos ela corre por toda a parte entusiasmada com tudo que vê. Aos três vive fazendo birra e aos quatro, em um belo dia acorda tendo medo do escuro. Onde está a liberdade nisso? E aos quinze, diante do espelho, ela experimenta se maquiar. É neste momento em que ela toma suas próprias decisões? Ela é uma menina singular, e disto ela sabe, mas também vive seguindo as leis da natureza. O problema é que ela não percebe isso, pois por trás de tudo o que faz existe um número muito grande de motivos extremamente complicados.
Spinoza considerava Deus, as leis da natureza, a causa interna de tudo o que acontece, logo, Deus não é um manipulador de fantoches. Um "mestre de marionetes" comanda tudo do lado de fora da cena, e por isso é uma coisa externa. Mas não é assim que Deus governa o mundo. Deus governa o mundo através das leis da natureza. Desta forma, Deus - ou a natureza - é a causa interna de tudo o que acontece. Sendo assim, tudo na natureza acontece porque deve ser assim. E onde fica Deus em tudo isso? - Em tudo que nos cerca.
(Texto baseado em publicações de J Gaarder)
Gabriel Ornellas