Um turbilhão de imagens desconexas emergiam do meu subconsciente e entravam em cena no palco dos sonhos formando o que chamam de pesadelo. Aquilo me trouxe um certo desconforto e repentinamente como quem foge desesperado de algo que não sabe o que é mas teme por precaução, me via acordado. Na realidade não tenho certeza disso. A única coisa que conseguia enxergar era a escuridão. Parece melhor do que aquelas imagens perturbadoras, então acredito ter acordado. Percebo a ausência do cobertor. O desconforto do sono é grande e eu estendo o meu braço em busca do interruptor que costumava estar ali. Logo ali. Cadê a porra do interruptor?
Irritado, me levanto da cama. Agora eu estico o braço na certeza de que um esbarrão com a parede vai me proporcionar alguma referência da qual eu preciso para encontrar o maldito interruptor. Nada de esbarrão. Após um passo ensaiado topo meu dedão do pé com alguma coisa da qual eu gostaria de saber o que era, para poder usar seu nome como sujeito do palavrão que proferira. Dor e cólera se misturam e atacam meu sistema nervoso e psicológico. Fecho os olhos profunda e irritadamente, como se isso fosse me trazer a visão e reduzir meu sofrimento.
Confusão. Ao abrir os olhos percebo que a luz se torna presente. Muita confusão. Mas o que está acontecendo? Por um instante minha ira e sofrimento me impedem de ver o presente estarrecedor. Não havia mais nada no lugar. Minha posição se tornara estática. Meus olhos a única coisa a se movimentar em meu ser. Tudo fora mudado.
Uma triste e deprimente paisagem é captada por minhas retinas. Meus pés que antes pisavam em confortáveis e aquecidas placas de madeira agora sentiam os grãos de terra se acomodando por entre meus dedos. Percebo minha nudez. Nada de roupas. Por mais que eu tente retratar o que se passa em frente aos meus olhos o estado de estupor não permite que eu enxergue. Tudo parece horrível. Ao voltar meus olhos para o horizonte vejo algumas árvores que outrora foram imponentes e esbanjavam de vivacidade. Porém agora o que lhes restavam eram folhas secas e retorcidas, deitadas aos seus pés, galhos quebrados e desnutridos empunhando folhas com total ausência de vida. A ausência de vida parecia ter tomado aquela parte do mundo. Após uma breve pausa fecho os olhos voltando-os para dentro, inconscientemente rebuscando memórias. Sinto que o ar gélido que cortava minha pele cessa.
Abro lentamente os olhos como quem espia por entre as pálpebras em uma brincadeira de criança. A esperança parecia ter trazido ótimos frutos. Um mar de verde irrompe para o interior dos meus olhos. Logo enxergo sua fonte, a grama que envolve meus pés. Eu ainda me encontro nu mas não me importo, porque o sol atinge a minha pele aquecendo-me ternamente. As árvores secas se tornaram vivas, desta vez maiores e possuindo frutos e folhas. O céu reina absolutamente azul e as nuvens dançam conforme o vento sopra e formam todo tipo de coisa imaginável e inimaginável.
Apesar de ter este ambiente eu ainda não me sinto completamente bem. A vida voltara porém eu insistia em me perguntar aonde estava. Se estava. Apartamento, carro, documentos, relógio, dinheiro... quem escondeu "tudo"? Seria a sociedade fundamentada em bens materiais? Poderiam cifras resumir o meu caráter? As coisas que me definem poderiam ser "escondidas" ou trancafinhadas em alguma espécie de cofre? E quanto às minhas experiências vividas? Quanto aos meus sonhos? Quanto às minhas memórias? Parece difícil separar o material do imaterial porém quando conseguirmos fazê-lo com mais facilidade, ficamos mais próximos da verdadeira humanidade.