quinta-feira, 28 de julho de 2011

Esconderam "tudo"?

Um turbilhão de imagens desconexas emergiam do meu subconsciente e entravam em cena no palco dos sonhos formando o que chamam de pesadelo. Aquilo me trouxe um certo desconforto e repentinamente como quem foge desesperado de algo que não sabe o que é mas teme por precaução, me via acordado. Na realidade não tenho certeza disso. A única coisa que conseguia enxergar era a escuridão. Parece melhor do que aquelas imagens perturbadoras, então acredito ter acordado. Percebo a ausência do cobertor. O desconforto do sono é grande e eu estendo o meu braço em busca do interruptor que costumava estar ali. Logo ali. Cadê a porra do interruptor?
Irritado, me levanto da cama. Agora eu estico o braço na certeza de que um esbarrão com a parede vai me proporcionar alguma referência da qual eu preciso para encontrar o maldito interruptor. Nada de esbarrão. Após um passo ensaiado topo meu dedão do pé com alguma coisa da qual eu gostaria de saber o que era, para poder usar seu nome como sujeito do palavrão que proferira. Dor e cólera se misturam e atacam meu sistema nervoso e psicológico. Fecho os olhos profunda e irritadamente, como se isso fosse me trazer a visão e reduzir meu sofrimento.
Confusão. Ao abrir os olhos percebo que a luz se torna presente. Muita confusão. Mas o que está acontecendo? Por um instante minha ira e sofrimento me impedem de ver o presente estarrecedor. Não havia mais nada no lugar. Minha posição se tornara estática. Meus olhos a única coisa a se movimentar em meu ser. Tudo fora mudado.
Uma triste e deprimente paisagem é captada por minhas retinas. Meus pés que antes pisavam em confortáveis e aquecidas placas de madeira agora sentiam os grãos de terra se acomodando por entre meus dedos. Percebo minha nudez. Nada de roupas. Por mais que eu tente retratar o que se passa em frente aos meus olhos o estado de estupor não permite que eu enxergue. Tudo parece horrível. Ao voltar meus olhos para o horizonte vejo algumas árvores que outrora foram imponentes e esbanjavam de vivacidade. Porém agora o que lhes restavam eram folhas secas e retorcidas, deitadas aos seus pés, galhos quebrados e desnutridos empunhando folhas com total ausência de vida. A ausência de vida parecia ter tomado aquela parte do mundo. Após uma breve pausa fecho os olhos voltando-os para dentro, inconscientemente rebuscando memórias. Sinto que o ar gélido que cortava minha pele cessa.
Abro lentamente os olhos como quem espia por entre as pálpebras em uma brincadeira de criança. A esperança parecia ter trazido ótimos frutos. Um mar de verde irrompe para o interior dos meus olhos. Logo enxergo sua fonte, a grama que envolve meus pés. Eu ainda me encontro nu mas não me importo, porque o sol atinge a minha pele aquecendo-me ternamente. As árvores secas se tornaram vivas, desta vez maiores e possuindo frutos e folhas. O céu reina absolutamente azul e as nuvens dançam conforme o vento sopra e formam todo tipo de coisa imaginável e inimaginável.
Apesar de ter este ambiente eu ainda não me sinto completamente bem. A vida voltara porém eu insistia em me perguntar aonde estava. Se estava. Apartamento, carro, documentos, relógio, dinheiro... quem escondeu "tudo"? Seria a sociedade fundamentada em bens materiais? Poderiam cifras resumir o meu caráter? As coisas que me definem poderiam ser "escondidas" ou trancafinhadas em alguma espécie de cofre? E quanto às minhas experiências vividas? Quanto aos meus sonhos? Quanto às minhas memórias? Parece difícil separar o material do imaterial porém quando conseguirmos fazê-lo com mais facilidade, ficamos mais próximos da verdadeira humanidade.

terça-feira, 19 de julho de 2011

História de Um Brâmane

    Permaneci calado por algum tempo, pois venho incomodado com a filosofia, a razão, e o conhecimento incessante, o qual, incansavelmente busco, sem nem mesmo saber porque. De que adianta tanto conhecimento, que na verdade não passa de alguma subjetividade alheia? 
       De que adianta, buscar incansavelmente soluções para perguntas sem repostas? O fato é que por mais que eu indague e pesquise, jamais saberei de onde vim, porque vim, e para onde vou. E isso me faz sentir o pior dos homens, pois não sei justificar minhas atitudes, quanto menos responder o que sou. Não seria melhor então, não me preocupar com nenhuma destas questões, e simplesmente viver a vida, como deve ser, apenas mais uma peça deste imenso tabuleiro? 
       Em meio a tantas perturbações me deparei, por um leve acaso, com este conto de Voltaire. Exponho ele antes de me posicionar. Assim que conseguir digerir um pouco mais tudo isso volto aqui.
    
História de Um Brâmane
(Voltaire)

      "Encontrei nas minhas viagens um velho brâmane, homem bastante sábio, cheio de espírito e erudição; de resto, era rico, e por isso mesmo ainda mais sábio; pois, como nada lhe faltasse, não tinha necessidade de enganar ninguém. O seu lar era muito bem governado por três belas mulheres que porfiavam em agradar-lhe; e, quando não se divertia com elas, ocupava-se em filosofar.
         Perto de sua casa, que era bonita, bem ornamentada e cercada de encantadores jardins, morava uma velha hindu, imbecil e muito pobre.
      - Quem me dera não ter nascido! - disse-me um dia o brâmane. Perguntei-lhe porquê. - Há quarenta anos que estudo - respondeu-me - e são quarenta anos perdidos: ensino aos outros, e ignoro tudo; esse estado enche-me a alma de tal humilhação e desgosto, que me torna a vida insuportável. Nasci, vivo no tempo, e não sei o que é o tempo; acho-me num ponto entre duas eternidades, como dizem os nossos sábios, e não tenho a mínima ideia da eternidade. Sou composto de matéria, penso, e nunca pude saber por que coisa é produzido o pensamento; ignoro se o meu entendimento é em mim uma simples faculdade, como a de marchar, de digerir, e se penso com a minha cabeça como seguro com as minhas mãos. Não só o princípio do meu pensamento me é desconhecido, mas também o princípio de meus movimentos: não sei por que existo. No entanto, todos os dias me perguntam sobre todos esses assuntos; é preciso responder; nada tenho que preste para lhes comunicar; falo bastante, e fico confuso e envergonhado de mim mesmo após ter falado.
       O pior é quando me perguntam se Brama foi produzido por Vixnu, ou se ambos são eternos. Deus é testemunha de que nada sei a respeito disso, o que bem se vê pelas minhas respostas. - Ah! meu reverendo - imploram-me, - dizei-me como é que o mal inunda toda a terra. - Tenho as mesmas dificuldades que aqueles que me fazem tal pergunta: digo-lhes algumas vezes que tudo vai o melhor possível; mas aqueles que ficaram arruinados ou mutilados na guerra não acreditam nisso, nem eu tampouco: retiro-me acabrunhado da sua curiosidade e da minha ignorância. Vou consultar os nossos antigos livros, e estes duplicam as minhas trevas. Vou consultar os meus companheiros: respondem-me uns que o essencial é gozar a vida e zombar dos homens; outros julgam saber alguma coisa, e perdem-se em divagações; tudo concorre para aumentar o doloroso sentimento que me domina. Sinto-me, às vezes, à borda do desespero, quando penso que, após todas as minhas pesquisas, não sei nem de onde venho, nem o que sou, nem para onde vou, nem o que me tornarei.
       O estado desse excelente homem causou-me verdadeira pena: ninguém tinha mais senso e boa-fé. Compreendi que, quanto mais luzes havia no seu entendimento e mais sensibilidade no seu coração, mais infeliz era ele. 
       Vi, no mesmo dia, a velha sua vizinha: perguntei-lhe se alguma vez se afligira por saber como era a sua alma. Nem chegou a entender minha pergunta: nunca na sua vida refletira um momento sobre um só dos assuntos que atormentavam o brâmane; acreditava de todo o coração nas metamorfoses de Vixnu e, desde que algumas vezes pudesse conseguir água do Ganges para se lavar, julgava-se a mais feliz das mulheres.
       Impressionado com a felicidade daquela pobre criatura, voltei ao meu filósofo e disse-lhe: 
      - Não te envergonhas de ser infeliz, quando mora à tua porta um velho autômato que não pensa em nada e vive contente?
      - Tens razão - respondeu-me ele; - mil vezes disse comigo que seria feliz se fosse tão tolo como a minha vizinha, e no entanto não desejaria tal felicidade.
       Essa resposta causou-me maior impressão que tudo o mais; consultei a minha consciência e vi que na verdade também não desejaria ser feliz sob a condição de ser imbecil. 
      Expus a questão a filósofos, e eles foram da minha opinião. - No entanto - dizia eu, - há uma terrível contradição nessa maneira de pensar. Pois de que se trata, afinal? De ser feliz. Que importa, pois, ter espírito ou ser tolo? Mais ainda: aqueles que estão contentes consigo estão bem certos de estar contentes; mas aqueles que raciocinam não se acham tão certos de bem raciocinar. - É claro - dizia eu - que se deveria preferir não ter senso-comum, uma vez que este contribua, o mínimo que seja, para o nosso mal-estar. Todos foram da minha opinião, e todavia não encontrei ninguém que quisesse aceitar o pacto de se tornar imbecil para andar contente. Donde concluí que, se muito nos importamos com a ventura, mais ainda nos importamos com a razão.
       Mas, refletindo bem, parece uma insensatez preferir a razão à felicidade. Como se explica, pois, tal contradição? Como todas as outras. Aí há muito de que falar."

(Conto retirado de "Primores do Conto Universal. Contos Franceses" )

Gabriel Ornellas

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ser louco ou não ser?

Enquanto centenas de gotas molhadas de água caíam sobre meus já úmidos cabelos, um pensamento atravessou o banheiro como um relâmpago e chocou-se contra a minha mente. "Os loucos têm motivo para a sua loucura, já os normais não têm motivo para a sua normalidade". Sinceramente não sei se este foi um pensamento advindo do interior do meu crânio, onde supostamente se formam as idéias, mas isto não é o mais importante.
Na verdade nem sei se este é um pensamento importante porque o que é importante pra mim pode não o ser para você (esta frase definitivamente não saiu do interior do meu cérebro, na verdade saiu mas outra pessoa a fez mais famosa). As pessoas costumam se ater a parâmetros, fórmulas, métodos e scripts enquanto as coisas e situações que nos deixam boquiabertos sejam simples e espontâneas. Eu prefiro a idiotice espontânea ao sorriso maquinado, engendrado. Prefiro o xingo sentido ao elogio camuflado. Prefiro ser rejeitado a ser aceito de malgrado.
A mania da certeza. Esta ataca a todos os seres humanos com certeza! (até a minha pessoa é claro). Como você pode ter certeza de que tem certeza? É ciclicamente confuso e perturbador. Imagine um cachorro correndo atrás de seu rabo. Imaginou? Este é um ser humano tentando ter certeza de qualquer que seja a coisa da qual ele deseja ter certeza sobre. Você acredita ter certeza no que vê? Então experimente colocar um espelho em frente à um outro espelho. Olhe para qualquer um dos dois por pelo menos dez minutos (sinceramente eu não aguento isso por dois minutos). Ainda tem certeza de que o quê vê é verdade?
Maluquice né (nada como uma ilusão para nos mostrar a "verdade")?! Mas apesar de não termos certeza de nada, somos teimosos em aprender, e isso eu valorizo no ser humano pois a certeza não leva a lugar algum mas a dúvida sim. A dúvida é o combustível dos sábios e a barreira dos preguiçosos, eu acho.
Sem ter certeza de nada mas com um bolso cheio de dúvidas a responder, prossigo viagem com minha mochila suja cheia de idéias e lembranças, com minhas roupas surradas e meu cabelo despenteado tentando escalar a "pelagem do coelho" (o Everest dos "malucos").
Se eu fosse ter certeza de algo, teria certeza de que uma boa e verdadeira gargalhada é uma das melhores coisas do mundo.




Obs.: Para quem não entendeu a "escalada da pelagem do coelho" fica uma dica de ótima leitura, "O mundo de Sofia" de Jostein Gaarder. Não haverá arrependimentos.
Igor Vivo