Por um longo período minhas idéias permaneceram obscuras e embaralhadas e ainda permanecem, porém as vezes o embaralhador das cartas que dão forma à minha psique as vezes se distrai e permite que eu retire uma dessas cartas, turvas e enegrecidas, de minha profunda e ao mesmo tempo superficial inconsciência. Essa extração é angustiante e nada previsível. Pode ser suave e esclarecedora como um raio de sol que atinge uma escrita encoberta, mas pode também ser dolorosa e lacrimosa como caminhar por um tapete de alfinetes.
Estive pensando sobre a solidão.
A solidão acompanha a todos. A solidão não tem classe social nem momento crítico. Ela simplesmente aparece. Entra sem bater à porta e senta ao seu lado no sofá encarando-te docemente, inclina a cabeça e sorri como uma velha amiga, seus lábios pálidos não esboçam nada senão o sorriso que não é nem de alegria muito menos de tristeza. Impossível não a observar atentamente. Com ela o tempo voa lá fora e para aqui dentro. Sua beleza é dolorosa e angustiante.
Enquanto eu volto meus olhos à televisão ela pousa seu lábio em meu rosto, dispersando um sentimento estranho e indefinível (acredito que ela é uma grande amiga da saudade). De repente minha cabeça tomba para trás cedendo ao cansaço e me vejo olhando para as estrelas. O céu fora mais límpido outrora. A angústia que corre atrás de meus olhos de repente é acompanhada pela esperança, essa de que a primeira vá embora, afugentada por um sorriso amigo que me mostre real felicidade em me avistar.
A mão fria e branca da solidão toca a minha e eu me sinto novamente diferente. Agora reparo a indiferença dos meus semelhantes em relação aos mundos paralelos que os rodeiam. Tantas histórias, tantas verdades e tantas mentiras.
A solidão chama meu nome com sua voz melodiosa e me diz que vai embora, vai embora porque sabe que não sou só e que ninguém o é. Diz que vai embora mas que com certeza irá voltar, breve ou demoradamente, mas que irá voltar. E então seus lábios e mãos me tocarão novamente. Farão exatamente o mesmo para me lembrar que tenho muita coisa a valorizar que me cerca diariamente.
A solidão para mim é uma amiga, é uma entidade misteriosa e bela, seu significado pode ser ruim dependendo do ângulo como a enxergamos, mas se procurarmos a beleza no significado das coisas e se desatarmos o pano que cobre nossas vistas para enxergar o que realmente importa, veremos que a solidão nos traz de volta a si, e que sem ela os nossos egos poderiam ter um crescimento impetuoso e desenfreado nos tornando pessoas intragáveis.
Obs.: Hoje tive uma longa conversa com a solidão. Ela me mostrou algumas coisas. Nem todas são fáceis de entender ou aceitar. Mas eu continuo a acreditar que a vida sempre irá acertar e que os humanos tendem a tentar endireitar aquilo que deve ser, por natureza própria, tortuoso.
Igor Vivo
Mas que porcaria...
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